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:: Terça-feira, Agosto 31, 2004 ::




Foto sem título, conhecida como O Cisne, de Scott Mutter, fotógrafo contemporâneo residente em Chicago. Suas ótimas foto-montagens primam por um surrealismo ora sensível ora perturbador, reflexos da nossa miscelânea pós-moderna.




Outra foto de Scott Mutter, igualmente sem título, conhecida como Escalator.

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:: Quinta-feira, Agosto 26, 2004 ::

Num dia assisti Dogville. No dia seguinte, Adeus, Lênin.
Filmes bons têm a capacidade de me fazer pensar, pensar muito. E poder sofrer todas as dores que merecem.
A duras penas consegui saber, há uns anos, o que é luto, luto de verdade, luto por qualquer coisa, por qualquer idéia, qualquer princípio que algum dia porventura tivera num estágio de lucidez inútil.
Luto por um amigo perdido e, o outro, afastado.
Luto por um cão morto há décadas, por um ritmo perdido, um suspiro de vento abafado, por um canteiro de onde removeram as dálias, os cravos, as onze-horas.
Cimento. E nada.
Somos todos iguais. Todos envoltos nessas concepções de poltrona. Vítimas das nossas fantasias que nos alimentam, mas nos corrompem.
Não há saída. Não há.
Acho que é assim que a gente começa a se despedir do mundo.

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:: Sexta-feira, Agosto 20, 2004 ::


Realidade?, perguntou-se, e divisou no mesmo instante, bem junto ao rosto de Albertine, mas no travesseiro ao lado, no travesseiro dele, um escuro contorno, como as linhas sombreadas de um rosto humano. Por um segundo, seu coração parou; em seguida, porém, percebeu do que se tratava, estendeu a mão rumo ao travesseiro e pegou a máscara que usara na noite anterior e que, enquanto embrulhava o pacote pela manhã, devia ter caído sem que ele notasse e possivelmente sido encontrada pela governanta ou pela própria Albertine. Não restava dúvida, pois, que, uma vez tendo-a achado, Albertine deveria ter adivinhado muita coisa, provavelmente mais e de maior gravidade do que aquilo que de fato se passara. Contudo, a maneira como o havia comunicado disso, sua idéia de pôr a máscara no travesseiro ao lado - como se a representar as feições do marido, transformadas agora para ela num enigma -, essa atitude brincalhona, quase travessa, parecendo exprimir ao mesmo tempo uma suave advertência e a disposição de perdoar, deu a Fridolin a esperança e a certeza de que, talvez em virtude da lembrança do sonho que ela própria tivera, Albertine estava propensa a, fosse o que fosse que houvesse acontecido, não tomar o fato com demasiada seriedade. Fridolin, todavia, sentindo-se já subitamente sem forças, deixou que a máscara escorregasse para o chão e, de forma inesperada até mesmo para si próprio, pôs-se a soluçar alta e dolorosamente, abaixando-se à beira da cama e chorando baixinho no travesseiro.
Poucos segundos depois, sentiu a mão macia acariciar-lhe os cabelos. Levantou, então, a cabeça e, do fundo do coração, escaparam-lhe as palavras: "Vou contar tudo a você".

RECONHECERAM?
Pois é isso mesmo.
É um trecho do pequeno romance que deu origem à adaptação de STANLEY KUBRICK para seu último filme, o DE OLHOS BEM FECHADOS.
A adaptação de Kubrick é de uma honestidade tocante ao passar para o mundo contemporâneo este Breve Romance de Sonho(1926), de Arthur Schnitzler (Editora Companhia das Letras).
ARTHUR SCHNITZLER (1862-1931), médico, dramaturgo, romancista, contista e ensaísta vienense, foi um dos maiores expoentes da literatura austríaca da virada do século.

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:: Segunda-feira, Agosto 16, 2004 ::


SE EU TIVESSE, DE REPENTE, MUITO DINHEIRO


Primeiro, ajeitaria a vida dos familiares: marido e filhos.
Eu iria a Pompéia, Paris, Nova Iorque e Hong-Kong.
Compraria uma TV enorme de tela plana, um datashow, a melhor máquina fotográfica digital.
Compraria roupas, mas não jóias. Mas muita bijuteria.
Teria muitos livros, DVDs, quadros, algumas esculturas e muitas estantes.
Reformaria minha cozinha, minha casa inteira: jardins e quintal inclusive.
Faria uma necessária plástica no meu rostinho já cansado.
Compraria um galpão enorme e o transformaria em atelier. Aqui perto de casa há um desses...
Faria, só por diversão, uma central (usufruíveis por todos) de DVDs só de filmes BONS.
Faria periodicamente tratamento corporal num maravilhoso SPA.
Não teria apartamento nas cidades que me interessassem: ficaria em hotéis cinco estrelas por quanto tempo eu quisesse.
E para comemorar meu aniversário, um cruzeiro na primeira classe alugada de um navio de primeira linha para todos os amigos verdadeiros.
Doações? Claro que faria.

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:: Quarta-feira, Agosto 11, 2004 ::
Como há algum tempo eu não postava nada sobre artes plásticas, aqui vai uma imagem e uma linda análise do crítico e ensaísta GIULIO CARLO ARGAN, ambas emprestadas de seu imprescindível livro ARTE MODERNA ((Editora Companhia das Letras).
Escolhi esta imagem e análise retiradas do livro de G. C. Argan para dar só um exemplo de o que comumente nos escapa, ao observarmos uma obra de arte, sobre o seu sentido, sua época e seu autor.

WILIAM BLAKE


William Blake (1757-1827), poeta, gravador, desenhista e pintor, pensava a Arte não como um acúmulo de artes, mas como sendo a única vertente da atividade do espírito que escapa à matéria e um meio de relacionar-se com o Divino, isto é, com o Ser na sua totalidade (natureza, mito, história, passado, presente, futuro).
Toda a obra de Blake consiste em desenhos a bico-de-pena, pintados com aquarela em cores suaves e transparentes.
Para Blake Arte é síntese, não análise; é inspiração e não pesquisa; subjetividade e não objetividade. A Ciência, no entanto, tem seus aspectos sublimes por ser um esforço heróico, ainda que fadado ao fracasso, de conhecer e possuir o real. É o que nos diz o seu desenho aqui abaixo.


Newton - desenho de William Blake - 1795


Na obra acima, William Blake não fez o retrato de Newton, mas sim sua representação simbólica como um herói, um titã ou um anjo rebelde que se condenou à solidão e inutilmente procura na matemática uma verdade que está nas coisas, mas não sabe ou não quer ler. O céu para o qual não olha e se mantém obscuro para ele, as pedras cheias de variações naturais sobre as quais se senta sem as ver constituem justamente a realidade que ignora enquanto traça figuras geométricas com o compasso. Seu corpo inutilmente vigoroso, como o de um Michelangelo, dobra-se e fecha-se sobre si mesmo, também formando uma figura geométrica, um quadrado. De fato, a mente racional pode apenas se dobrar, repetir-se, renunciar ao vôo até o sol, à comunhão com o Universo. Blake reconhece que a ciência é o eixo da nova cultura e a contesta por considerar o artista um ser excepcional, em contato com tudo o que a ciência, nos limites de sua racionalidade, não chega a compreender.
É de Michelangelo que Blake capta a profunda tendência anticlássica, isto é, ao antinaturalismo e a inclinação ao simbolismo.
Blake pode ser considerado o ponto de partida para o grande arco do Simbolismo romântico que se completará no fim do século XIX com a poética de Mallarmé e a pintura de Redon.

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:: Sábado, Agosto 07, 2004 ::

PENSAMENTO SEM LUZ ALGUMA - V


O cotovelo tem uma ponta engraçada
que não espeta nem nada;
só afasta,
sem graça,
quem se aproxima da gente
de repente.

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:: Segunda-feira, Agosto 02, 2004 ::




MEU BLOG ESTÁ FAZENDO UM ANO!!!

Conheci muitos amigos, bons amigos da mesma tribo. Agradeço a amizade de todos e desejo-lhes sempre muita ALEGRIA, PAZ e PROSPERIDADE!!!


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