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:: Quinta-feira, Setembro 23, 2004 ::


Meus amigos, todos vocês estiveram meio devagar esta semana. O post abaixo tem sete dias e só há oito comentários!!
Hoje vou ministrar uma aula (a disciplina chama-se Oficinas Multidisciplinares, e este semestre está por minha conta: reunir música e artes plásticas) relacionando o movimento tropicália com artistas plásticos dos anos 60-70. Muita música e muitas transparências.
Tomara que meus alunos entendam tudo.

Outros trabalhos já foram feitos com outras relações:
música clássica/estilo neoclássico;
romantismo;
impressionismo/Debussy+Erik Satie;
pós-impressionismo/Ravel
e por aí vai.

Agora vou elaborar provas, corrigir umas tantas outras, verificar os trabalhos... Tenham paciência, ok? Nem estou visitando ninguém, por enquanto.



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...
:: Quinta-feira, Setembro 16, 2004 ::

RUBENS GERSHMAN e Tropicália


Rubens Gershman nasceu em 1942 na cidade do Rio de Janeiro. Nos anos 60 estudou na Escola de Belas Artes e foi membro fundador do Museu do Imaginário Latino-Americano de Nova York. Foi co-fundador da Revista Malazartes em 1974. Em 1975 assume a direção do antigo Instituto de Belas Artes e o transforma na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (eu estudei lá nos anos 80).
Desde 1964 Gershman faz continuamente inúmeras exposições individuais e participações em coletivas no Brasil e no exterior. Tem obras em museus e coleções particulares do Rio, São Paulo, Salvador; de vários países da América Latina; dos Estados Unidos; da Alemanha.

RUBENS GERSHMAN é, dos artistas plásticos contemporâneos brasileiros, um dos meus preferidos.


Lindonéia - a gioconda do subúrbio - 1966


No auge do movimento Tropicália, Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram uma canção para Lindonéia. A letra está abaixo.

LINDONÉIA (1968)
(Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss, linda, feia
Lindonéia desaparecida

Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor

Lindonéia, cor parda
Fruta na feira
Lindonéia solteira
Lindonéia, domingo
Segunda-feira

Lindonéia desaparecida
Na igreja, no andor
Lindonéia desaparecida
Na preguiça, no progresso
Lindonéia desaparecida
Nas paradas de sucesso
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor

No avesso do espelho
Mas desaparecida
Ela aparece na fotografia
Do outro lado da vida.


O movimento Tropicália valorizava a cultura brasileira popular urbana. Considero esse movimento um neo-barroco tupiniquim. A Tropicália elegeu o subúrbio, a banana, as cores fortes, o povo nas ruas. Gershman, na época, retratou esse povo com propriedade única: os compradores de ouro nas calçadas, os retratistas e os retratados, os desempregados, domésticas e uma série de gente que atabalhoadamente lutava por sobreviver num Brasil que se iniciava no processo industrial mais denso e calava sua boca sob os olhos da Revolução de 1964, cujo sistema de repressão entrava em funcionamento a partir de 1967. O jeito dos baianos apaulistados era, então, farrear nas entrelinhas com letras, músicas e arranjos (salve, salve o maestro Rogério Duprat) coloridos que escorriam pelos dedos da censura sempre presente. Época de gênios.
Aliás, os gênios sempre aparecem, como os heróis e como os anjos, nas épocas em que mais se precisam deles.
E ainda hoje Caetano Veloso pode ser ouvido através de seu lado político. Não é à toa que, no CD onde canta canções norte-americanas, ouvimos ao fundo, lá na quarta faixa, o grito de Se entrega, Corisco! da trilha de Sérgio Ricardo para o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha.
Quem passou pela rebordosa viu, sentiu e entendeu.
Quem ouviu falar e estudou pode até entender, se se esforçar. Mas não dependam da mídia, por favor.

MAIS DOIS TRABALHOS DO GERSHMAN AQUI ABAIXO:


O rei do mau gosto - 1966



Policiais identificados na chacina - 1988


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:: Sábado, Setembro 11, 2004 ::


JORGE DE LIMA

1893-1953


INVENÇÕES DE ORFEU


Canto III


Poemas relativos

VI


Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada
sem face do ser.


Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.



VII


Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.


São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.


Jorge Matheos de Lima nasceu em Alagoas em 1893, filho de um senhor-de-engenho de alta linhagem. Fez os primeiros estudos em sua cidade, União, e depois em Maceió, no Colégio dos Irmãos Maristas. Estudou Medicina em Salvador, transferindo-se para o Rio de Janeiro onde terminou o Curso, e onde defendeu tese sobre os serviços de higiene na capital federal. Ainda estudante de Medicina, publicou seu primeiro livro, XIV Alexandrinos (1914). Após ter-se formado retornou a Maceió. Sem jamais ter abandonado a Medicina, lecionou na Escola Normal Estadual de Maceió, chegando a ser diretor. Ocupou outros cargos públicos estaduais, como Diretor-Geral da Instrução Pública e Saúde e Deputado, além de manter constante seu interesse pelas artes plásticas.
Em 1930 transferiu-se definitivamente para o Rio de Janeiro - onde passou a clinicar e lecionar Literatura Brasileira nas Universidades do Brasil e do Distrito Federal. Em 1925 foi eleito vereador ocupando, três anos mais tarde, a presidência da Câmara do Rio de Janeiro. Iniciou-se, de maneira autodidata, nas artes plásticas em 1940, no Rio, ano em que foi homenageado com o Grande Prêmio de Poesia concedido pela Academia Brasileira de Letras.Em 1943, publicou o álbum de fotomontagens intitulado A Pintura em Pânico, com prefácio de Murilo Mendes. No Rio entrou em contato com o Modernismo nacionalista. Faleceu no Rio de Janeiro em 1953.

A carreira poética de Jorge de Lima apresenta uma evolução contínua, fazendo com que se possa dividi-la em três momentos ou fases. A primeira se estabelece a partir de rígidos princípios parnasianos. A segunda é a fase nordestina por se vincular ao universo regional alagoano. E a terceira é a fase religiosa, já que o autor impregna seus poemas de conteúdos místicos e metafísicos, aproximando-se do simbolismo. As obras Túnica Inconsútil (1938) e Invenção de Orfeu (1952) são as mais importantes da fase religiosa, e apresentam uma simbologia hermética marcada pelo alegórico, pelo ritmo, equilíbrio métrico e atemporalidade. Seus poemas religiosos revelam aspectos contraditórios que se aproximam de alucinações com qualidades surrealistas. A poesia de Jorge de Lima vincula-se à segunda geração do Modernismo.




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:: Terça-feira, Setembro 07, 2004 ::


É DIFÍCIL ACREDITAR EM DEUS, EU SEI, MAS SOMOS TODOS BARROCOS...
FAZER O QUÊ, NÃO É?

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:: Sábado, Setembro 04, 2004 ::


ONTOLOGIA SUMARÍSSIMA

Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.

A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.

A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.

A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve pra coisa alguma.

A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.

Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.


De Paulo Henrique Britto - em Mínima Lírica (Coleção Claro Enigma), São Paulo, Editora Duas Cidades, 1989.

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