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:: Sexta-feira, Novembro 25, 2005 ::



Todos nós temos os nossos dias de cafonice. No Natal, então, a coisa aflora mesmo. Nada melhor do que entregar-se aos dourados, vermelhos e verdes, folhas de azevim com frutinhas vermelhas, caixas de presente enfeitadas... e o indispensável Papai Noel.
Há os que ainda colocam boneco de neve com cachecol e cartola entre os enfeites, flocos brancos de isopor ou algodão na árvore de Natal, mas para mim já é breguice demais.

Há, porém, os que nem se tocam. Bom pra eles, porque bom-gosto é mesmo uma prisão.

Há uns seis anos eu não comprava nenhum enfeite novo. Todos os anos era a mesma coisa: mesmas bolas, mesmos laços, mesma guirlanda de porta (que agora eu coloco pelo lado de dentro da porta, porque se não a minha rotweiller Helga Maria a trucidaria). Este ano me adiantei: já comprei alguns presentes e acabei entrando nessas grandes lojas de departamentos e lavei a égua. Tudo em verde, vermelho, dourado - como manda o figurino. A casa vai ficar parecendo bazar, mas não estou nem aí.

Cafona, mesmo, é colocar blazer com camisa estampada. Cafonas são aquelas moças e senhoras quase sempre acima do peso que colocam vestido de alcinha colado no corpo. E as imensas sandálias de plataforma, que além de serem feias, distorcem o andar das pessoas. Os tênis, então, são muito bregas. Cafonas são os comerciais de pasta dental e sabonete. Cafona é a forma do atendente, hoje, tratar o cliente que entra na loja.
Cafona é o caudilho, são os corruptos, os sorrisos vazios dos políticos de cátedra, as idéias de revolução violenta. Cafona é essa síndrome de pobre que o brasileiro adquiriu. É rir do sotaque português ou debochar de qualquer manifestação cultural estranha à nossa. É rir das pessoas pelas costas, é comentar a feiúra de pessoas comuns que aparecem, por um motivo ou outro, na TV.
Cafona é fingir ser o que não é. Cafona é o covarde, o pusilânime.
É também a mãe que berra com o filho na rua, são os que cochicham perto de uma terceira pessoa, os que vão ao banheiro e não dão descarga - e ainda fingem lavar as mãos. Cafona é o fanático religioso.
Cafonas são as novelas (que têm sempre o mesmo enredo) e a maioria dos programas de TV.

Perto disto tudo, as bolas de Natal, os laços, o glitter, os festões, as guirlandas parecem aquarelas esmaecidas.

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:: Sexta-feira, Novembro 18, 2005 ::
PARA QUEM NÃO CONHECE MINHAS GRAVURAS


No post abaixo coloquei o trabalho dos alunos. Agora mostro os meus, porque se me orgulho das obras dos pupilos, também me orgulho das minhas. Estas abaixo fazem parte de uma série que fiz há uns anos. Minha prensa está sem uso já faz um tempo, mas depois que me aposentar vou ativá-la novamente.
A técnica é gravação em chapa de metal, chapa de papelão e de tela de arame.


Flor de la noche - de Jane Chiesse



Em silêncio se ouve Brahms - de Jane Chiesse


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:: Sábado, Novembro 12, 2005 ::

EXPOSIÇÃO DOS MEUS ALUNOS DE GRAVURA


Além de algumas técnicas convencionais de Gravura (xilogravura, calcogravura, linoleogravura), meus alunos, futuros professores de Arte nos colégios de 1º e 2º graus da região, experimentam algumas técnicas de gravura alternativa, ou seja, tipos de gravura que poderão exercitar com seus futuros alunos até de colégios de baixa renda, pois as matrizes são feitas de materiais descartáveis ou baratos de serem conseguidos.
Todos os anos, geralmente em outubro, meus alunos fazem uma exposição de seus trabalhos onde estas técnicas são apresentadas. Este ano, porém, resolvi fazer com que todos eles apresentassem uma só técnica, o molde vasado em acetato (ou radiografia). O tema é o autoretrato, e a expo tem o nome de SUDÁRIOS. Pesquisei em Dicionários de Latim e de Português para saber o que, na verdade, significava a palavra sudário, já que tanto o retrato de Jesus gravado pela Verônica na Via Crucis quanto a santa mortalha são chamados por este nome. Sudário era um pano que os romanos usavam para enxugar o suor (e tb era mortalha, pois esta absorve o líqüido do corpo).
Daí dividi as turmas: uma delas iria apresentar seus autoretratos em morim (meu intuito foi a transparência) e a outra iria homenagear o trabalho, pois é através do trabalho que transpiramos. O resultado está registrado aqui. O conjunto, pessoalmente, está mais bonito que nas fotos... Sim, sou professora-coruja.





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:: Quarta-feira, Novembro 09, 2005 ::


No post anterior o Finados imperou, e o conhecimento da morte estava no ar e em todas as linhas. Agora vamos falar de vida.

Meu sogro, o velho "seu" Caetano, era uma figura singularíssima: nunca perdeu, nem aos oitenta anos,aquelas costas retas, os ombros largos, a economia de gestos, as poucas palavras (pouquíssimas, por sinal) que caracterizam os homens que conversam com as árvores e as estações. Agricultor filho de italianos, tinha vida típica dos seus pares: trabalho duro, de olho na meteorologia, quintal grande e alguns porcos que, no fim do período de engorda, faziam a festa dos da família: carne, torresmo, banha, lingüiça, copa (ou socol).
Vi muitas vezes o porco abatido e já aberto, pendurado pelos pés no caramanchão ao lado do paiol e os homens da casa trabalhando nessa "colheita".
Nunca assisti nem estava acordada nos abates, pois este era feito à primeira hora da manhã e eu, de férias na casa dos sogros, confesso, acordava entre oito e nove horas da manhã.
Por toda a sua vida de homem casado e chefe da família, meu sogro era o responsável pelo abate do porco, o que fazia com uma espingarda mirada exatamente na testa do animal para que não sofresse nada.

Pois um belo dia eu soube, ao acordar e me deparar com aquela "estranha fruta" pendurada no quintal, que Seu Caetano mirara na cabeça do porco, deixou passar uns segundos... e abaixou a arma. Entregou a espingarda para um dos filhos homens e disse que nunca mais mataria porco na vida.
E assim foi.

Ao saber da notícia, percebi o que acontecera. A maturidade e a velhice são uma apologia à vida, e não há um homem maduro que não dê valor a ela, seja de que forma esta se mostre. Na época, todos entendemos o gesto, mas à medida que o tempo passa e adquirimos mais passos em direção à idade que ele tinha quando depôs a arma, mais presentes ficam em nós os sentimentos que certamente Caetano teve naquela bela manhãzinha ensolarada.
O mesmo sentimento está explícito no filme Blade Runner: o replicante moribundo salva a vida de seu inimigo e o deixa viver - e esse gesto só é sentido a fundo pelas pessoas que, na maturidade, valorizam a vida presente em todos os seres vivos.

Bem faziam os antigos, que davam aos velhos o poder de decidir questões importantes, porque o que é importante, na vida, só com maturidade se percebe.

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:: Terça-feira, Novembro 01, 2005 ::

(A imagem é do site www.uol.com.br/ omossoroense/301003/)


FINADOS


A eliminação das energias negativas através dos opostos vem de longe: depois de todas as Bruxas vêm todos os Santos, e depois destes vêm todos os Mortos. Inigualável seqüência, por sinal.

Culto aos mortos é uma expressão ambígua. Há o significado mais erudito, sim, indicando um ritual de homenagem, mas culto virou uma palavra que completa, hoje, expressões como culto à beleza, culto à inteligência, culto às celebridades, culto a Allah...
Parece que, com o culto, todos vão curvar-se, de joelhos, perante algo a ser divinizado. Infeliz transformação do sentido. A não ser no México, claro, onde a morte é motivo de festa e celebração, num verdadeiro carnaval em que caveiras, múmias, tequila, burritos, flores, toalhas celebram o Finados.
Verdade é que o Finados, no inconsciente coletivo, é a celebração aliviada dos que estão ainda vivos; se eu ofereço flores estou do lado de cá, se as recebo estou do outro lado...

Desde que os humanos se reconheceram em sua própria imagem nos espelhos dos lagos tranqüilos reconheceram também a constatação terrível de que eles também, tal como seus semelhantes, vão morrer.
Consciência da morte é consciência de si, e nada melhor do que os deuses para guardar o que sobrou do cidadão morto. Alma é conceito que vem com a negação da morte, assim como punições e recompensas acompanhariam, na outra vida, o seguimento do que o indivíduo foi neste mundo. Um seguimento, é tudo o que queremos para ficarmos tranqüilos e pensar na morte sem desesperar-nos, mesmo que for um castigo eterno, mas um seguimento, por favor.

A queda do Paraíso após a degustação do Fruto do Conhecimento... A queda do Paraíso foi, na verdade, a consciência da morte.

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