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:: Quarta-feira, Julho 12, 2006 ::

AINDA O GRUPO DE LAOCOONTE


Nos comentários sobre o post anterior, o Lúcio ressaltou que uma análise sociológica a respeito dos dois períodos (helenístico e renascentista) seria adequada, já que a posição correta do braço direito de Laocoonte sugere uma dramaticidade mais combalida, mais entregue à sorte (azar, na verdade) do que a posição heróica entendida pela mentalidade renascentista.
Minha admiração por Michelangelo é muito grande, e ficou maior ainda depois de saber do fato narrado no post anterior. O artista é conhecido principalmente pelas estátuas de Davi e Moisés e pela pintura quase milagrosa no teto da Capela Sistina. E, apesar da beleza expressiva do teto, não se dizia pintor, mas escultor. Esse teto da referida Capela influenciou de perto a obra de Rafael, que na mesma época pintava as Stanzas dentro do Vaticano. Há clara diferença, nas Stanzas, da pintura de antes e depois que Rafael apreciou a evolução da pintura do teto de Michelangelo. Acompanhando o capítulo O Michelangismo no livro Clássico anticlássico de Giulio Carlo Argan aprendemos que os primeiros pintores barrocos estudaram a fundo a obra de Michelangelo e através desse estudo desenvolveram as características do movimento barroco. Entre esses pintores, Carracci e Caravaggio.

Mas não quero fugir do assunto em pauta, que é a análise dos períodos helenístico (produção da escultura em questão) e renascentista (proposta de restauração desta) a partir da diferença de concepção de como o tal braço deveria estar.
O que mais nos chama a atenção é a intuição acertada de Michelangelo a respeito do movimento correto da estátua, o que demonstra seu conhecimento profundo de anatomia, mas penso que seu conhecimento era ainda maior: ele certamente sabia que na época em que Laocoonte foi feito, mesmo que não existisse ainda a expressão período helenístico, a dramaticidade em tal período era vigorosa e com uma entrega mais total, mais revolta sob o mundo dos deuses do que era entendida no Renascimento. E que, para acentuar o aspecto circular, espiralado do movimento das serpentes, aquele braço não poderia estar fugindo de sua sina, mas adequando-se a ela.

Quanto a uma análise sociológica, Lúcio, aí é coisa mais complicada. Precisaríamos de um estudo sobre a Grécia debaixo do jugo de Alexandre, com as cidades-Estado já enfraquecidas em sua independência, empobrecidas após a Guerra do Peloponeso anterior à conquista de toda a península. Laocoonte surge como uma metáfora da época de seus criadores: as cidades, grandes e pequenas, estranguladas por um poder estrangeiro, do qual nunca mais se recuperariam em sua grandeza.

No Renascimento idealista a posição é outra: Florença, Veneza e Roma (entre outras) estão no auge de seu burburinho intelectual alimentado por uma classe mercantil poderosa, rica, pródiga. Laocoonte, aqui, tem por onde fugir, tem como levantar um protesto, sair da espiral estranguladora. Por isso a proposta do tal braço levantado arregimentou mais simpatizantes que a lúcida visão de Michelangelo...

O que escrevi é, em poucas palavras, o que observei a partir da sua provocação, Lúcio. Mais que isso seria começar um tratado...

E bem sei que durante estes dias difíceis neste nosso país combalido e prestes a fenecer sob o estrangulamento de outras serpentes o assunto em pauta é bem outro. Quase não há lugar, neste dias, para Arte.
Mas também é verdade que nós precisamos continuar, apesar de tudo, nossa pacífica jornada no mundo do pensamento.
É isso.
Comente aqui, sem medo :: 11:42 AM [+] ::
...
:: Quinta-feira, Julho 06, 2006 ::
O GRUPO DE LAOCOONTE


O grupo de Laocoonte é uma escultura em mármore, e encontra-se hoje no Vaticano. Foi descrito por Plínio, o Velho no volume 36 da sua Naturalis Historia como uma obra de arte superior a qualquer pintura ou bronze conhecido do autor. A escultura encontrava-se então no palácio do Imperador Tito. A autoria da obra é atribuída por Plínio a Hagesander, Athenodorus e Polydorus, três escultores da ilha de Rodes (há quem diga que estes 3 escultores a copiaram de obra mais antiga, provavelmente do século III ou II a.C). Mas através do cruzamento desta informação de Plínio com o período de vida dos escultores, a estátua fica datada na segunda metade do século I a.C., mais provavelmente entre 42 e 20 a.C. A escultura foi provavelmente encomendada por um cidadão romano rico, mas não se sabe exatamente como foi parar às mãos imperiais. Após esta menção de Plínio, o grupo de Laocoonte desaparece nos 1400 anos seguintes.No dia 14 de janeiro de 1506, o romano Felice de Fredi descobriu uma estátua durante trabalhos de manutenção da sua vinha, localizada na zona das antigas termas de Tito. A escultura desconhecida estava desfeita em cinco pedaços, mas todos os habitantes da Roma renascentista sabiam reconhecer uma obra clássica quando a viam e de Fredi passou a palavra a Giuliano de Sangallo, arquiteto do papa Júlio II. Sangallo acorreu ao local da descoberta de imediato trazendo consigo Michelangelo Buonarroti, que por coincidência almoçava na sua casa nesse dia. De imediato, os dois reconheceram a estátua desfeita como o grupo de Laocoonte descrito por Plínio e enviaram a notícia da descoberta a Júlio II, que comprou a estátua na hora por 4140 ducados.
A redescoberta do grupo de Laocoonte causou enorme sensação em Roma. Felice de Fredi foi recompensado com uma pensão vitalícia de 600 ducados por ano e, quando morreu, o seu papel na descoberta da estátua ficou mencionada no seu túmulo.
O grupo de Laocoonte era escultura incompleta, pois faltava principalmente o braço direito da figura do próprio Laocoonte. A omissão provocou o debate da comunidade artística romana, polarizado entre duas opiniões: Michelangelo sugeriu que o braço estivesse dobrado sobre o ombro do personagem, enquanto que a maioria defendia que estivesse, pelo contrário, distendido numa posição mais heróica. Júlio II organizou então uma competição informal onde os escultores pudessem propor a sua solução para o problema. Rafael, como júri do concurso, acabou por escolher uma proposta que representava o braço esticado, e a estátua foi completada desta forma.

Em 1957, o verdadeiro braço perdido de Laocoonte foi descoberto num antiquário italiano e, como Michelangelo previra, estava de fato dobrado sobre o ombro.


Esta é a proposta heróica para o braço direito de Laocoonte feita por escultor renascentista e que durante 500 anos completou a estátua do sacerdote.



E esta é a posição original com o braço encontrado em 1957. O mais interessante é que tanto os escultores helenísticos quanto Michelangelo souberam interpretar corretamente a posição dos músculos que indicavam a real posição!


A LENDA

Laocoonte e seus filhos fazem parte da semi-lendária guerra de Tróia. Os gregos estavam atacando Tróia e um dia colocaram diante das muralhas um imenso cavalo de madeira, fingindo retirada. O sacerdote troiano Laocoonte advertiu seus compatriotas de que poderia ser um truque. Não lhe deram atenção e o cavalo foi trazido para dentro. À noite, os soldados gregos saíram do bojo do cavalo e dominaram Tróia de surpresa. Como a deusa Atena estava do lado dos gregos, resolveu se vingar de Laocoonte por ter quase atrapalhado seus planos. Duas serpentes gigantescas saíram do mar e envolveram Laocoonte e seus filhos. A escultura os imagina no momento mais doloroso de sua agonia.

http://pt.wikipedia.org/
http://www.sampa.art.br/saopaulo/Laocoonte.htm

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